:: Clarim :: - Triste despedida
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Araxá / MG -
Clarim

28/09/2017, às 08:56:54

Triste despedida

A experiência de Patrocínio com a Vale Fertilizantes nos dias atuais tem sido semelhante à vivenciada por Araxá nos anos 1970/1980 com a implantação da Arafertil, marcadas pela exploração mineral sem responsabilidade ambiental e social. Ao ponto do prefeito de Patrocínio, Deirró Marra, assinar o decreto de revogação da Certidão de Conformidade concedida para a operação de extração do minério que está sendo beneficiado em Araxá, na última sexta-feira, 15. A ameaça que recai sobre a mineração em Patrocínio não deixa de se refletir na operação da fábrica em Araxá que depende 100% do minério extraído lá. A maior dúvida é quanto ao destino dessas atividades num futuro bem próximo, porque a multinacional Mosaic que comprou a Vale Fertilizantes por US$ 2,5 bilhões assume o seu comando ainda em 2017.

O prefeito Deirró disse que está tomando todas as medidas legais para que a Superintendência Regional de Meio Ambiente (Supram), sediada em Uberlândia, suspenda a eficácia do decreto concedido pela prefeitura para a extração do minério que vem de trem para Araxá, onde as próprias minas de fosfato estão esgotadas. A princípio, não só a mineração do minério de qualidade (com alta concentração) como o seu beneficiamento ocorreriam em Patrocínio, com a implantação de uma moderna fábrica para a produção de fertilizantes mais complexos do que o supersimples produzido em Araxá, ou seja, com muito mais valor agregado. No entanto, mediante a crise econômica e, por ser detentora da logística do transporte ferroviário em decorrência da mineração do ferro que é realmente o que lhe interessa, a Vale fez esse arranjo que possivelmente pode não ser mantido pela Mosaic - a maior companhia do mundo em produção e comercialização de fosfato e potássio concentrados. A tendência é a de que a Mosaic retome o plano inicial de implantação da fábrica em Patrocínio, o que inclusive poria fim na ira do prefeito, caso também adotasse as medidas ambientais cobradas e cumprisse a contrapartida social negociada com a Vale.

Então, se for essa a decisão da Mosaic em relação a Patrocínio, como fica a unidade de Araxá? De onde passaria a vir o minério a ser beneficiado aqui? De Tapira, talvez? É realmente uma incógnita, uma solução que somente os donos do negócio podem propor, inclusive porque com a transação a Mosaic passa a ser líder em fertilizantes no Brasil, tendo a Vale como sócia-minoritária pelo menos pelos dois primeiros anos, com os 11% do valor de sua compra pagos em ações. A conclusão do acordo fechado em dezembro de 2016 estava prevista para 2018, mas tudo indica que foi antecipada.

A boa notícia é a de que a Mosaic não investiu à-toa para tornar-se líder em produção e distribuição de fertilizantes no país que possui um dos mercados agrícolas mais promissores do mundo. Assim como não é difícil ser muito melhor do que a Vale Fertilizantes em todos os aspectos, que embora tenha sido privatizada ainda aparenta ser uma companhia apegada ao modelo de administração do setor público, burocrática e centralizadora. A falta de relacionamento com as comunidades de Araxá e Tapira, onde passou a atuar após incorporar a Bunge Fertilizantes e a Fosfertil, não pode ser pior. Há também o recente exemplo de Patrocínio, onde o descaso da Vale é alarmante, porque em apenas seis meses de mineração os córrego drenados pela companhia estão secando, como aponta o prefeito Deirró.

Aliás, uma prática que aconteceu em Araxá há quatro décadas quando a extinta Arafertil passou a minerar bem em cima do complexo do Barreiro. Naquela época, foi preciso que a comunidade em peso desse o grito que levou ao fechamento do acordo Pró-Araxá em 1984 através da interveniência do governo do Estado, com o estabelecimento da cota de mineração e o reflorestamento e recuperação da área degradada, como a Mata da Cascatinha, além do constante monitoramento da poluição, dentre outras medidas. Outro embate com a empresa mineradora e Araxá ocorreu já nos anos 1990, criado pela necessidade de concessão do alvará de localização para a instalação da fábrica de ácido sulfúrico no município. O então prefeito Olavo Drummond negou-se a assinar o alvará de localização da fábrica de sulfúrico a apenas 3 quilômetros do Grande Hotel e, além de conseguir aumentar por três vezes esta distância, negociou como contrapartida a implantação do aterro sanitário de Araxá e a construção de três unidades de ensino infantil para o município. O que Patrocínio tenta fazer atualmente.

A Vale Fertilizantes também age em Araxá mediante a falta de transparência e compromisso, onde a administração municipal tem sido engabelada como foi a de Patrocínio. Enquanto negociava a sua venda com a Mosaic, a Vale fez crer na reversão da postura distante e descomprometida com a comunidade, vigente desde a sua presença em Araxá em substituição à Fosfertil e à Bunge, alardeando a execução do Projeto Patrocínio que daria uma sobrevida à unidade local. O que não ocorreu de fato, apenas aparentemente, como hoje é possível constatar. Agora resta a Araxá ser pró ativo nesse momento de transição para que não seja surpreendido negativamente e, pelo contrário, consiga vislumbrar oportunidades de desenvolvimento e parcerias com as mudanças às vistas. 

 
 
 
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