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:: Editorial :: Antiga e nova discussão
17/08/2017, às 08:33:41

 

A recente obra iniciada pelo prefeito Aracely de Paula na av. Antônio Carlos volta a dividir a opinião pública, com comentários a favor e contrários em rede social, como também no corpo a corpo com a população. As intervenções no atual projeto inaugurado há menos de cinco anos, em dezembro de 2012, provocam discussões como antes quando foi executado. Polêmica à parte, o prefeito está convencido sobre o resultado dessa iniciativa dada a sua determinação em realizá-la desde o mandato passado, iniciado excepcionalmente ao final de 2014, apesar das críticas que tem suscitado.

Ao assumir o governo municipal em 2009, o ex-prefeito Jeová Moreira da Costa encontrou a árdua tarefa de remodelar o espaço deixado pelo antigo mercado municipal, que tinha sido desapropriado e demolido há dois anos, mas ainda permanecia o escuro vazio bem no coração da cidade. Retirar o abafado mercado da área central já praticamente descaracterizado, onde predominavam bares e pontos de prostituição, foi o passo primordial desse grande desafio que precisava ser completado, dado pelo ex-prefeito Antônio Leonardo Lemos Oliveira já sob muita polêmica.

A definição do que seria construído, o levantamento dos recursos e o enfrentamento de uma acirrada disputa política que levou inclusive à abertura de uma Comissão Processante na Câmara Municipal em decorrência da execução da obra anterior demandaram os primeiros quatro anos de mandato do ex-prefeito Jeová e foi entregue inacabada em detalhes e com problema estrutural na rampa de acesso à fonte luminosa, além do acabamento duvidoso. Mas o seu esforço foi reconhecido, porque apesar de tudo Jeová foi reeleito e, especificamente, com boa votação no Centro da cidade, onde também implantou sob questionamentos o calçadão no primeiro quarteirão da rua Presidente Olegário Maciel. Porém, a reestruturação da área central como prevista, com a revitalização do segundo quarteirão da rua Olegário Maciel até a praça Governador Valadares e vias adjacentes não teve continuidade ainda no seu governo.   

De qualquer forma, o projeto do reconhecido arquiteto Gustavo Penna descortinou uma nova visão da av. Antônio Carlos que passou a estar integrada entre a Igreja Matriz de São Domingos e o Parque do Cristo, demarcada pelo alinhamento dos paus-mulatos (tão insultados), com a fonte acima do teatro municipal que por si próprio arranca elogios pela sua arrojada concepção e perfeita acústica. As rampas elevadas ao invés dos semáforos disciplinaram motoristas e pedestres; os primeiros a pararem e os outros a atravessarem nas faixas. Mas, o conjunto deixou de sobressair-se em razão dos pormenores agigantados pela discórdia.

O clamor popular levou à abertura da mão inglesa que permitiu o cruzamento de veículos pela avenida em área que não tinha sido construída para suportar esse trânsito. A fiação subterrânea não deu o efeito tão esperado, porque os pedaços dos antigos postes continuaram no meio das calçadas. A questionável qualidade do acabamento geral e a falta de praticidade do granito utilizado no calçamento também comprometeram o resultado final. A falta do memorial previsto no projeto para a área da fonte somou-se ao erro de cálculo na construção da rampa de passagem e ainda não houve a finalização do paisagismo com a colocação de bancos, lixeiras, plantas floridas e de pequeno porte para não afetarem a nova vista e, nem mesmo, feitas as passagens para conduzir a travessia dos pedestres que fazem trilhas danificando a grama, inclusive sempre seca pela falta de cuidados e irrigação adequados.

A nova reforma na av. Antônio Carlos reascende as discussões, como ao prever a reabertura dos cruzamentos para o trânsito entre as ruas Calimério Guimarães e Capitão José Porfírio e Dom José Gaspar e Santos Dumont, repartindo novamente o conjunto, quebrando a sensação do inteiro. Uma medida que privilegia o trânsito, na contramão da tendência mundial de retirada do tráfego de veículos das áreas históricas das cidades. Outra dúvida é se a colocação de semáforos vai mesmo melhorar o trânsito por ali, pois já existiram anteriormente quando era possível passar da rua Cassiano Lemos para a rua presidente Olegário Maciel atravessando a av. Antônio Carlos e na lateral da Igreja Matriz de São Domingos, provocando a formação de enormes filas de veículos dada a exiguidade do espaço e a falta de fluxo. Quiçá, realmente a solução encontrada nesse projeto de reformulação jogue por terra essa preocupação.

Ao mesmo tempo em que privilegia o trânsito de veículos, a nova proposta pretende humanizar a av. Antônio Carlos, gerando um paradoxo. A cidade cresceu muito e a avenida nem é tão larga assim para comportar equipamentos que convidem as pessoas a enfrentar o trânsito e o vai e vem de pedestres apressados demais para estarem parados numa praça tão movimentada. A boa intenção de resgatar a antiga praça Antônio Carlos, alvo de tanto saudosismo da população, parece missão impossível nos dias de hoje. Assim como é descabida a proposta dos taxistas de voltarem o ponto para o meio do canteiro central da avenida aproveitando a atual reforma, embora tenham toda a razão em pleitear um local adequado de trabalho, porque existia até serem remanejados de lá para onde estão, em frente ao casarão histórico da antiga Câmara Municipal, num improviso que parece permanente.

O atual projeto de reforma da av. Antônio Carlos não contempla o ideal de um centro histórico de fato turístico, fechado para o trânsito inclusive de ônibus através da criação de novos corredores de circulação, como chegou a propor o ex-prefeito Antônio Leonardo através da desapropriação de um trecho da rua Capitão Chaves, refutada em debate levado ao Legislativo. E inclusive também com a proposta de desapropriação de pelo menos três casarões históricos da região, com a valorização dos museus e do comércio, inclusive no eixo ao Parque do Cristo pela rua Padre Anchieta. Uma aspiração cada vez mais distante devido às novas propostas que surgiram de lá para cá. Na época, também se falou na implantação de um novo mercado como mais um atrativo, com produtos de fato da terra.

Resta-nos torcer para que a nova intervenção na praça seja tão aprovada quanto vislumbrada, satisfazendo pelo menos os anseios populares.

Clarim
Radix Comunicação e Tecnologia