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Denise M. Osborne
Denise M. Osborne
14/07/2017, às 09:17:11
Quando o palavrão fala mais alto

“Você é uma idiota! Ignorante.” – disse o político Jair Bolsonaro a uma repórter em 2014, depois de se irritar com uma pergunta dela sobre a ditadura militar.

Índios são “vagabundos” e “não servem pra nada” –, postou um professor da Universidade Federal de Minas Gerais nas redes sociais no Dia do Índio este ano.

“Seu patife, me respeite, seu indecente, bandido, cara de ladrão…” – gritou o deputado federal Wladimir Costa (SD-PA), membro do (acreditem!) Conselho de Ética, em uma sessão do congresso, em julho do ano passado.

A repórter Miriam Leitão foi hostilizada por um grupo de delegados do PT durante as duas horas de voo, no dia 3 de junho deste ano, de acordo com um artigo publicado por ela. Aproximadamente 20 pessoas a ameaçaram e xingaram o tempo todo, inclusive a chamando de “terrorista” – ela que foi presa durante a ditadura quando tinha apenas 19 anos, e acusada exatamente de ser terrorista.

“Tu é um imbecil, filho da p**, babaca.” – disse uma pessoa no Facebook em seu vídeo, onde critica aqueles que acreditam nos signos astrológicos.

E por aí vai!

O uso de palavrões tem tomado espaço no cotidiano físico e virtual do brasileiro, embora nem sempre sejam usados necessariamente como xingamento. Nas palavras de Nicole, minha sobrinha de 12 anos, os palavrões nem sempre são utilizados como expressões de raiva. Às vezes, são usados para expressar susto, chamar atenção ou expressar felicidade, por exemplo.

Se por um lado o uso de expressões de baixo calão e xigamento têm se tornado cada vez mais comuns, por outro lado, a normalização da violência verbal tem o potencial de nos coibir de avançarmos em nossa experiência de vida. Por que? Porque eles são fechados em si e não estabelecem relações. Como estabelecer um diálogo reflexivo depois que alguém te intitula de “idiota” e “ignorante”?  

O pouco caso que se tem dado à reflexão crítica, tanto no ambiente público quanto no privado, demonstra que estamos vivendo um momento de descaso com o pensamento cuidadoso. Quando eu xingo o outro, não apenas promovo um discurso de ódio e preconceito, mas também demonstro que, para mim, o outro não existe. Ao rebaixar o outro, me redimo da minha própria desgraça.

Muitas pessoas argumentam que xingamentos fazem parte da liberdade de expressão, da qual qualquer pessoa tem o direito de exercer. Mas deveriam o insulto pessoal ou o ataque a minorias serem parte dessa liberdade? Como podemos expressar livremente nossos pensamentos sem deixarmos de ser seres democráticos e “cidadãos digitais” justos?

O uso excessivo de palavrões e xingamentos pode levar a normalização da agressão verbal e se espalhar para outras áreas do nosso convívio. Há por exemplo, estudos recentes que demonstram o crescimento da agressão vocabular nas escolas e no ambiente de trabalho no Brasil (como o bullying). Aliás, em 2014, o Brasil ficou no topo do ranking de violência contra professores - o país mais violento entre os 34 países da pesquisa (dados da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico).

Quando não nos colocamos prontos a escutar, não abrimos espaço para o outro. Negamos, então, sua existência. A negação do outro resulta em silêncio. Viver em um ambiente democrático requer conviver com aqueles que nós discordamos. Pode ser confuso. Pode ser complicado. Mas quem disse que a democracia vem fácil?


Clarim
Radix Comunicação e Tecnologia