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Araxá / MG -
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Denise M. Osborne

23/06/2017, às 08:42:06

Muito Mulher

“Mulher minha só vai a dois lugares: da cozinha pro quarto e do quarto pra cozinha.” Essa foi uma piada que um amigo de Araxá me contava quando eu era adolescente. Para ele, era muito engraçado. Para mim, era desconfortável.  

“Você deve requebrar mais quando anda. Você é muito dura.”, me dizia uma colega da 6ª série, me ensinando a ser mais feminina. Conselho, aliás, que entrou em um ouvido e saiu pelo outro.

“Você não tem namorado? Você tem que arrumar um namorado e casar. É muito importante para a mulher. Ninguém é feliz sozinho”, me dizia minha prima sinceramente preocupada comigo.

Todas nós mulheres já vivemos situações como essas: uma piada de mau gosto ou um comentário ofensivo para levar ao esvaziamento da nossa própria identidade.

Há alguns anos, vi a peça de teatro “O Monólogo da Vagina”, na cidade de Nova York. Essa peça traz relatos verdadeiros de mulheres que sofreram tipos de abusos em suas vidas. Antes de começar a peça, a apresentadora pediu para que aquelas mulheres que já tivessem sofrido algum tipo de abuso ou assédio sexual (como alguém ter passado a mão nelas ou ter tentado agarrá-las à força, em qualquer momento de suas vidas) levantassem a mão. Quase todas as mulheres da plateia levantaram a mão. Então, a apresentadora falou para aquelas que não haviam levantado a mão, que se ela desse mais alguns minutos, elas também iriam lembrar de alguma situação constrangedora. Ela estava certa. Logo depois da sua fala, eu me lembrei! Isso também havia acontecido comigo.

Há também aqueles que promovem a discriminação a mulheres de forma pública, como certo político brasileiro que apoia a ideia de que as mulheres deveriam ter salários mais baixos porque elas poderiam engravidar. Esse é o mesmo político que disse a uma deputada brasileira: “Jamais iria estuprar você, porque você não merece”. Declarações de ódio como essa levam a mais ódio e não problematizam, para dizer o mínimo.

Nem a igreja escapa. Aliás, a igreja, muitas vezes, ajuda a promover esse sistema opressor. Conheci uma americana que fazia parte de um grupo de mulheres de uma igreja protestante. Era um grupo pequeno e não havia homens. Então, as mulheres lideravam as reuniões. Quando uma família se juntou ao grupo, automaticamente o pai foi nomeado a pastor e as mulheres que antes exerciam papéis de liderança na igreja tiveram que se acomodar a outras posições menos expressivas. O argumento para tal atitude era bíblico: supostamente o homem deve sempre ser o líder (claro que esse argumento é circular).

Todos esses exemplos nos levam a pensar como o machismo e o mundo patriarcal no qual vivemos tem moldado o papel da mulher tanto na esfera pública (por exemplo, na política) como na esfera privada (por exemplo, nas nossas relações com os amigos). Todas as nossas relações estão de uma forma ou de outra marcadas por um sistema que coloca a mulher em um plano inferior e que a empurra para se ajustar às regras vigentes. Discursos prontos, que nos dizem como a mulher dever ser, nos previne de viver a nossa vida de forma plena. Se sujeitar a esses discursos e aceitá-los como dogmas, sem reflexão, sem questionamento, é contribuir para o esvaziamento da nossa própria identidade. Ter a chance de experimentar a condição humana em sua plenitude é tudo que queremos!

 
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